As 10 mulheres mais importantes da história da magia e as histórias que quase ninguém conta

por Alan Basilio
5,1K views

Uma cabeleireira que sabia os segredos de metade de Nova Orleans. Uma arqueóloga que amaldiçoou um colega numa frigideira. Uma ex-cantora de ópera que entrou disfarçada de mendiga na cidade proibida do Tibete. Uma ilustradora que desenhou o tarot mais vendido do mundo e foi enterrada numa cova sem nome.

A história do ocultismo costuma ser contada pelos homens: Aleister Crowley, MacGregor Mathers, Gerald Gardner, A. E. Waite. Só que quase todos eles dependeram de uma mulher que escreveu, desenhou, pagou as contas ou fez a magia acontecer de fato. E muitas vezes ficaram com o crédito por ela.

Esta lista reúne dez dessas mulheres, de Joana d’Arc, no século XV, até as bruxas que inventaram a Wicca no século XX. Algumas viraram heroínas, outras foram chamadas de fraude, e uma delas acusou outra da lista de atacá-la com magia. Todas mudaram o jeito como a gente pratica magia hoje.

1. Marie Laveau, a cabeleireira que sabia os segredos de Nova Orleans

Retrato de Marie Laveau, pintura de Frank Schneider, em Nova Orleans.

No século XIX, se você tinha um segredo em Nova Orleans, era bem provável que Marie Laveau soubesse dele. Ela penteava as mulheres das famílias brancas mais ricas da cidade, e as pessoas falam demais quando alguém está mexendo no cabelo delas. Junte isso a uma rede de criados e informantes espalhados pelas mansões e você tem a mulher mais temida e mais procurada da cidade. Ficou conhecida como a Rainha do Vodu.

Marie nasceu livre, filha de um fazendeiro branco e de uma mulher negra, numa Louisiana que ainda vivia da escravidão. Casou em 1819 com Jacques Paris, que sumiu pouco depois sem explicação, e passou a se apresentar como “Viúva Paris”. Depois viveu décadas com Christophe Glapion, com quem teve vários filhos.

O túmulo de Marie Laveau, que até hoje atrai turistas e devotos em Nova Orleans.

O vodu dela misturava santos católicos, espíritos africanos e uma boa dose de espetáculo. Contam que ela comandava rituais na beira do Bayou St. John, na noite de São João, com centenas de pessoas, e que dançava com uma cobra enorme chamada Zombi. Ao mesmo tempo cuidava de doentes nas epidemias de febre amarela e visitava condenados à morte na prisão da cidade, rezando com eles até o fim.

Ela morreu em 1881, mas muita gente jurou ter continuado a ver Marie pelas ruas. A explicação mais provável é que a filha, também chamada Marie, assumiu o nome e o trabalho da mãe. O túmulo no cemitério St. Louis nº 1 é um dos mais visitados dos Estados Unidos, e os visitantes ainda riscam três X na parede pedindo que ela realize um desejo.


2. Doreen Valiente, a mulher que escreveu a Wicca

Doreen Valiente, uma pioneira da Wicca.

Quem pratica Wicca hoje provavelmente já recitou palavras de Doreen Valiente sem saber. A Carga da Deusa, o texto mais famoso da religião, é dela.

Tudo começou em 1952. Doreen tinha 30 anos, era apaixonada por ocultismo e leu numa revista uma reportagem sobre bruxas que ainda existiriam na Inglaterra. Escreveu pedindo mais informações, e a carta foi parar nas mãos de Gerald Gardner. No Solstício de Verão de 1953, ele mesmo a iniciou. Não era a primeira experiência dela com magia: aos 13 anos já tinha feito um feitiço para proteger a mãe de um colega de trabalho que a assediava.

Lendo o livro de rituais de Gardner, que ele apresentava como antiquíssimo, Doreen reconheceu trechos inteiros copiados de Aleister Crowley. Ela achou que a fama de Crowley afastaria as pessoas e reescreveu boa parte dos rituais com poesia própria. É a versão dela que os covens usam até hoje.

Livro das Sombras de Doreen Valiente.

Em 1957 ela rompeu com Gardner. Ele queria aparecer nos jornais o tempo todo e, de repente, surgiu com umas “Leis Antigas” da Wicca que ninguém tinha visto antes, incluindo uma que dizia que a Alta Sacerdotisa devia sair de cena quando ficasse velha. Doreen não aceitou e foi embora.

Viveu o resto da vida num apartamento simples em Brighton, escrevendo livros e poemas, reunidos depois em Charge of the Goddess. Em 2013 a cidade colocou uma placa azul na fachada do prédio onde ela morou. Foi a primeira dessas placas oficiais dedicada a uma bruxa.


3. Margaret Murray, a cientista ateia que inventou as bruxas modernas

Margaret Murray em 1928.

Margaret Murray é a mãe de bruxas que provavelmente nunca existiram. E ela não era nenhuma mística: era egiptóloga, arqueóloga e a primeira mulher a dar aulas de arqueologia numa universidade britânica, a University College London. Em 1908 desenrolou uma múmia egípcia diante de uma plateia de centenas de pessoas em Manchester, num dos primeiros estudos científicos desse tipo.

A fama, porém, veio de uma teoria. Em 1921, no livro O Culto das Bruxas na Europa Ocidental, ela afirmou que as bruxas perseguidas na Europa eram seguidoras de uma religião pagã mais antiga que o cristianismo, que adorava um deus de chifres e se reunia em grupos de 13. Foi ela quem popularizou a palavra “coven”. Num livro seguinte foi além e defendeu que Joana d’Arc fazia parte desse culto.

Margaret Murray analisando uma múmia egípcia.

Os historiadores derrubaram a tese faz tempo. Antes disso, porém, Murray escreveu o verbete “bruxaria” da Enciclopédia Britânica, que ficou lá por quase 40 anos, e assinou o prefácio de Bruxaria Hoje, o livro de Gerald Gardner que lançou a Wicca em 1954. A ironia é grande: ela era ateia e queria tirar da bruxaria qualquer aura sobrenatural.

Isso não a impediu de lançar pelo menos uma maldição. Conta-se que Murray e uma amiga prepararam um feitiço numa frigideira contra um colega rival, que pouco depois deixou o emprego. Ela também marchou pelo voto feminino, publicou a autobiografia aos 100 anos, com o título My First Hundred Years, e morreu naquele mesmo ano, 1963.


4. Helena Blavatsky, a russa que fugiu do marido e criou a Nova Era

Aos 17 anos, Helena von Hahn casou com Nikifor Blavatsky, um vice-governador com mais do dobro da idade dela. Poucos meses depois fugiu e nunca mais voltou para ele. Do casamento ficou só o sobrenome.

O que veio depois parece roteiro de filme de aventura, e boa parte vem do relato dela mesma, então vale ler com um pé atrás. Ela dizia ter rodado a Europa, as Américas, a Índia e o Egito, entrado no Tibete para treinar com mestres secretos e lutado ao lado de Garibaldi na Itália, onde teria sido ferida em batalha. Uma parte é comprovada: em 1871 ela sobreviveu à explosão do navio em que viajava para o Egito.

Em 1875, em Nova York, fundou a Sociedade Teosófica com o coronel Henry Olcott. A proposta era juntar ocultismo ocidental, religiões orientais e ciência. Para muitos ocidentais, foi o primeiro contato com ideias como karma e reencarnação. Kandinsky, Mondrian, W. B. Yeats e até um jovem Gandhi, estudando direito em Londres, passaram pela influência dos teosofistas.

Blavatsky e o Coronel Olcott, seu companheiro e cofundador da Sociedade Teosófica.

A fama veio com escândalo. Em 1885, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres publicou um relatório dizendo que ela era uma das maiores impostoras da história e que forjava as cartas dos mestres que “caíam do teto” durante as sessões. Ela nunca recuou. Morreu em Londres em 1891, aos 59 anos, deixando A Doutrina Secreta e A Voz do Silêncio, que Fernando Pessoa traduziria para o português.


5. Dion Fortune, a ocultista que tentou deter Hitler com magia

Dion Fortune.

Violet Mary Firth chegou ao ocultismo por causa de um colapso nervoso. Ainda jovem, trabalhando numa escola, ela acreditou ter sido vítima de hipnose e dominação mental por parte da própria chefe, e saiu da experiência destruída. Passou o resto da vida tentando entender o que tinha acontecido: primeiro estudando psicanálise, depois magia. O nome Dion Fortune veio do lema da família, Deo, non fortuna (por Deus, e não pela sorte).

Ela entrou na Alpha et Omega, a ordem dirigida por Moina Mathers, que aparece mais adiante nesta lista, e as duas se desentenderam feio. Fortune contou que passou a sofrer ataques psíquicos, com visões de um gato gigante e arranhões que apareciam no corpo, e atribuiu tudo a uma antiga mestra. A história está em Autodefesa Psíquica, que virou um clássico sobre o assunto.

Em 1924 fundou a própria ordem, a Sociedade da Luz Interior, e passou a ensinar uma magia que conversava com Freud e Jung. Escreveu romances ocultistas como A Sacerdotisa do Mar e manteve com Aleister Crowley uma amizade que preferia não mostrar em público, segundo Alan Richardson em Aleister Crowley e Dion Fortune.

Quando a Segunda Guerra começou, ela organizou o que ficou conhecido como a Batalha Mágica da Grã-Bretanha. Toda semana mandava cartas aos membros da ordem com meditações coletivas para proteger o país de uma invasão nazista. Morreu em 1946, aos 55 anos, e está enterrada em Glastonbury, a cidade que considerava a mais sagrada da Inglaterra.


6. Lady Frieda Harris, a aristocrata que pagou Crowley para criar o Tarot de Thoth

Lady Frieda Harris, a ilustradora do Tarot de Thoth idealizado por Aleister Crowley.

Em 1937, Aleister Crowley estava falido, doente e com a pior reputação da Inglaterra. Lady Frieda Harris era casada com Sir Percy Harris, um político importante do Partido Liberal, e levava uma vida social impecável. Mesmo assim os dois se juntaram para criar o tarot mais sofisticado do século XX.

Crowley pensava só em redesenhar alguns arcanos maiores. Foi Frieda, então com 60 anos, quem insistiu num baralho inteiro e novo. E era ela quem pagava: 2 libras por semana para que ele orientasse os desenhos. Na ordem de Crowley, ela recebeu o nome mágico de Soror Tzaba.

O plano era terminar em três meses. Levaram cinco anos. Crowley corrigia tudo com rigor obsessivo, e ela chegou a pintar a mesma carta oito vezes até ele aprovar. Com medo de que o projeto respingasse na carreira do marido, Frieda pediu para não ter o nome ligado ao de Crowley em público, mas a parceria acabou ficando conhecida.

Tarot de Thoth.

O Livro de Thoth saiu em 1944. O baralho completo, impresso em cores, só chegou ao público em 1969, e nenhum dos dois viveu para ver. Crowley morreu em 1947. Frieda, viúva, mudou-se para a Índia e morreu lá em 1962. Para mim, o Tarot de Thoth segue sendo o melhor tarot já criado.


7. Pamela Colman Smith, a artista do tarot mais vendido do mundo, enterrada sem nome

Pamela Colman Smith em Outubro de 1912
Pamela Colman Smith em outubro de 1912.

Se você já viu uma carta de tarot, é bem provável que tenha visto um desenho de Pamela Colman Smith. O Rider-Waite-Smith, que ela ilustrou, vendeu dezenas de milhões de cópias e virou o modelo para quase todos os tarots que vieram depois. Por décadas, o nome dela nem aparecia na caixa.

Pamela, a Pixie para os amigos, cresceu entre Londres, Nova York e a Jamaica. Ganhava a vida como contadora de histórias, se apresentando em salões com lendas jamaicanas do aranha Anansi. Pintava ouvindo música, num estado que ela descrevia como quase de transe, e em 1907 foi a primeira artista que não era fotógrafa a expor na galeria de Alfred Stieglitz, em Nova York. Também ilustrou um livro de Bram Stoker, o autor de Drácula.

Na Golden Dawn conheceu Arthur Edward Waite, que em 1909 encomendou a ela um tarot novo. O baralho trouxe uma mudança enorme: as 78 cartas ganharam cenas com personagens, e não só os 22 Arcanos Maiores. É por isso que ele é tão fácil de ler até para quem está começando. Pamela fez tudo em uns seis meses.

Recebeu um pagamento único e nenhum direito autoral. Morreu em 1951, na Cornualha, cheia de dívidas. Os pertences dela foram leiloados para pagar as contas e ela foi enterrada numa cova sem identificação. O que sobrou da assinatura dela foi o pequeno monograma que ela desenhou no canto das cartas.


8. Moina Mathers, a primeira iniciada da Golden Dawn

Moina Mathers, uma das líderes da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn).

Moina era irmã de Henri Bergson, um dos filósofos mais famosos do século XX e ganhador do Nobel de Literatura. Ela mesma era uma pintora talentosa, formada na Slade School of Art, em Londres. Em 1887, estudando no British Museum, conheceu Samuel Liddell MacGregor Mathers, um ocultista excêntrico que estava prestes a fundar a Ordem Hermética da Aurora Dourada.

No ano seguinte a Ordem nasceu, e Moina foi a primeira pessoa iniciada nela, com o lema Vestigia Nulla Retrorsum (“nenhum passo para trás”). Casaram em 1890. Segundo os relatos da época, ela era os olhos de Mathers: clarividente, fazia as visões e recebia as comunicações que ele transformava em rituais.

Em Paris, o casal vivia apertado, sustentado durante anos por uma aluna rica da Ordem, a herdeira Annie Horniman. Para ganhar dinheiro e divulgar a magia, encenaram em 1899 os Ritos de Ísis num teatro parisiense, com Moina como alta sacerdotisa diante do público pagante.

Mathers morreu em 1918, e Moina assumiu sozinha a Alpha et Omega, ordem que ele tinha criado depois do racha da Golden Dawn. Foi ali que cruzou com uma jovem chamada Violet Firth, a futura Dion Fortune. As duas brigaram, e Fortune saiu da ordem convencida de que tinha sido atacada com magia. Moina morreu em 1928, aos 63 anos.


9. Alexandra David-Néel, a cantora de ópera que entrou disfarçada na cidade proibida

Alexandra David-Néel em vestido cerimonial.

Antes de virar lama, Alexandra David-Néel foi cantora de ópera. Nos anos 1890 era soprano e chegou a se apresentar na Ópera de Hanói, no Vietnã. Também escreveu um panfleto anarquista e estudou budismo em Paris quando quase nenhum europeu fazia isso.

Em 1904 casou com Philippe Néel. Sete anos depois saiu de casa para uma viagem de estudos pela Ásia que deveria durar 18 meses. Voltou 14 anos depois. O marido seguiu mandando cartas e dinheiro o tempo inteiro, e os dois mantiveram o casamento à distância até a morte dele.

Nessa viagem ela foi recebida pelo 13º Dalai Lama, viveu cerca de dois anos numa caverna no Himalaia aprendendo com um eremita e adotou um jovem monge, Aphur Yongden, como filho. Aprendeu o tummo, técnica tibetana de gerar calor no corpo pela meditação, e contou ter criado uma tulpa: um monge imaginário que ganhou tanta vida própria que ela levou um bom tempo para desfazer.

Em 1924, aos 55 anos, fez o que nenhuma mulher europeia tinha conseguido: entrou em Lhasa, a capital do Tibete, então fechada a estrangeiros. Tingiu o cabelo, escureceu a pele com fuligem e se disfarçou de mendiga peregrina. Viveu até quase 101 anos e, perto dos 100, ainda renovou o passaporte.


10. Joana d’Arc, a camponesa queimada como bruxa e transformada em santa

Retrato de Joana d’Arc, por Albert Lynch.

Joana era uma camponesa analfabeta de uns 13 anos quando começou a ouvir vozes. Ela dizia que eram São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, e que elas mandavam salvar a França dos ingleses na Guerra dos Cem Anos.

Aos 17, convenceu o herdeiro do trono a dar a ela armadura e tropas. Em 1429 ajudou a romper o cerco de Orléans, que já durava meses, e levou Carlos VII a ser coroado em Reims. Um ano depois foi capturada, vendida aos ingleses e levada a julgamento.

O processo foi uma armadilha atrás da outra. Perguntaram se ela estava na graça de Deus: se dissesse que sim, seria soberba herética, e se dissesse que não, estaria confessando culpa. Ela respondeu que, se não estivesse, pedia a Deus que a colocasse, e se estivesse, que Deus a mantivesse ali. No fim, um dos motivos usados para condená-la foi ter voltado a vestir roupas de homem.

Foi queimada viva em Rouen em 30 de maio de 1431, com 19 anos. Os ingleses queimaram o corpo mais duas vezes e jogaram as cinzas no Sena para que não sobrasse relíquia. Vinte e cinco anos depois, um novo julgamento anulou a condenação, e em 1920 a mesma Igreja que a mandou para a fogueira a declarou santa. Séculos mais tarde, Margaret Murray ainda tentaria provar que ela era, sim, uma bruxa.

veja também

erro: Conteúdo protegido.