Se você navegasse pelos blogs de música alternativa no final dos anos 2000, notaria uma mudança estranha na atmosfera. Entre o brilho neon do indie pop e a nostalgia lo-fi do chillwave, algo mais sombrio começou a se formar nas profundezas do Tumblr e do MySpace. Era o Witch House, um “não-gênero” que nasceu quase como piada interna e acabou definindo a estética de toda uma geração digital.
Ao contrário do que o nome sugere, não é música feita por bruxas nem pensada especificamente para rituais (embora funcione bem para os dois). O Witch House é, antes de tudo, uma experiência atmosférica: o som de uma rave numa casa assombrada, passada por uma fita VHS gasta.
A Origem: Uma Piada que Foi Longe Demais
A história mais contada remonta a 2009 e a Travis Egedy, o cara por trás do projeto Pictureplane. Num momento de sarcasmo com os amigos, ele cunhou o termo para descrever a música eletrônica com pegada ocultista que estavam produzindo. “Era uma brincadeira para descrever a house music de casas assombradas”, disse ele depois.
Naquela época a internet vivia obcecada em criar microgêneros para categorizar qualquer sonoridade nova (lembra do Seapunk? Do Vaporwave?). A imprensa musical, sempre faminta por novidade, pegou o termo “Witch House” e o transformou em algo real.
Vale registrar um detalhe que ajuda a entender o nome: antes de “Witch House” pegar, houve uma tentativa breve e desastrosa de rotular a cena como “Rape Gaze”, um trocadilho de péssimo gosto com Shoegaze. A reação negativa foi imediata, e com razão, o que empurrou a cena de vez para a nomenclatura das bruxas, que tinha um apelo estético muito mais forte.
Um dos primeiros exemplos fortes dessa estética veio da Suécia, com o projeto Fever Ray. Karin Dreijer (metade da dupla The Knife) trouxe o mistério e o vocal quase xamânico que o gênero passaria a idolatrar. A faixa “If I Had A Heart” virou o hino não-oficial dessa era, uma procissão fúnebre eletrônica.
A Alquimia Sonora: O Que Define o Som?
Musicalmente, o Witch House é um caldeirão de influências improváveis. Pegue o hip hop do sul dos Estados Unidos, especificamente o “chopped and screwed” do DJ Screw, que desacelera as faixas até elas parecerem derreter, e misture com a melancolia gótica dos anos 80 (darkwave, industrial) e o ruído etéreo do shoegaze.
O resultado é um som arrastado, muitas vezes claustrofóbico, e estranhamente hipnótico. As batidas são pesadas e lentas, geralmente entre 60 e 70 BPM, os sintetizadores soam como serras elétricas distantes, e os vocais são processados e cheios de eco a ponto de ficarem ininteligíveis, funcionando mais como instrumento fantasmagórico do que como voz humana.
Os protagonistas mais claros dessa sonoridade foram o trio Salem. Eles pegaram essa fórmula e a levaram ao extremo, criando hinos de desespero urbano e uma grandiosidade religiosa distorcida. A faixa “King Night” resume o gênero: batidas de trap esmagadoras colidindo com corais sintéticos numa parede de som avassaladora.
A Estética do Anti-Marketing
Talvez mais importante que a música fosse a identidade visual. O Witch House foi pioneiro numa espécie de anti-marketing digital. As bandas adotavam nomes impronunciáveis, cheios de símbolos Unicode: triângulos, cruzes, caracteres de alfabetos exóticos.
Nomes como †‡† (Ritualz), oOoOO ou S4LEM funcionavam como uma forma de gatekeeping. Tente pesquisar “triângulo” ou “cruz” no Google em 2010 e você nunca ia achar essas bandas. Isso forçava o ouvinte a cavar fundo em fóruns e blogs para descobrir as faixas, o que criava uma sensação de sociedade secreta digital.
A imagética abusava de colagens visuais inspiradas no ocultismo, trechos de filmes de terror obscuros, glitch art e a estética de VHS degradada. Não era sobre acreditar em magia negra, mas sobre evocar a sensação de medo, mistério e sobrenatural através da tecnologia.
Os Protagonistas do Ritual
Muitos projetos surgiram e desapareceram rápido, mas alguns nomes seguraram o gênero de pé:
- Salem: o trio de Michigan é citado quase sempre como o pilar do gênero. O álbum King Night (2010) segue como a referência principal.
- Crystal Castles: transitavam por vários gêneros eletrônicos, mas a sonoridade caótica e os vocais gritados de Alice Glass trouxeram a energia punk que levou a estética para um público mais amplo, o “mainstream indie”.
- White Ring e oOoOO: o lado mais etéreo e espectral, focado na atmosfera de “fantasma na máquina” mais do que na agressividade.
Enquanto o Salem trazia o caos, artistas como Zola Jesus trouxeram a ópera para o submundo. Com uma voz que lembra ícones góticos como Siouxsie Sioux, ela mostrou que o gênero podia ser emotivo e tecnicamente afiado sem perder a aura sombria.
A Conexão com o Feminino
É difícil falar de Witch House sem notar a presença feminina forte e a reconexão com o arquétipo da bruxa, não como vilã de conto de fadas, mas como símbolo de poder e mistério. Chelsea Wolfe transitou pelas bordas do gênero, misturando o peso do doom metal com a eletrônica fantasmagórica, e ajudou a fixar a imagem da “bruxa moderna” na cultura pop alternativa.
A Conexão Russa e o Legado Moderno
Curiosamente, o Witch House achou um segundo lar na Rússia. A melancolia do gênero combinava bem com a estética pós-soviética e o clima frio e industrial do leste europeu. Festas como a VV17CHOU7, em Moscou, mantiveram a cena viva bem depois do hype ter passado nos Estados Unidos, e revelaram artistas como Ic3peak, que mais tarde evoluíram para um som de protesto político, misturando o visual gótico com o trap moderno.
O Witch House não morreu. Foi absorvido.
Se você ouvir o trap atual, o emo rap de artistas como Lil Peep, ou até as produções iniciais de A$AP Rocky, o DNA do Witch House está lá: nos hi-hats frenéticos, nas atmosferas sombrias, na temática depressiva. A escuridão e o oculto encontraram um lugar permanente na música pop, desde que alguém saiba remixá-los direito.
Para Começar a Ouvir
Esqueça as playlists genéricas e comece pelos clássicos que definiram a era:
- Salem – King Night (a obra prima do gênero)
- Crystal Castles – (II) (a porta de entrada mais acessível)
- White Ring – Black Earth That Made Me
- oOoOO – oOoOO EP (fantasmagórico e atemporal)
- Purity Ring – Shrines (para quem prefere algo mais polido e pop)
O Witch House pode ter começado como piada acidental de um DJ, mas o som que ele batizou pegou bem a ansiedade e a escuridão da era digital. E, como qualquer feitiço decente, o efeito dura muito mais do que o momento em que foi lançado.